Quem de nós, ao olhar para os olhinhos curiosos dos pequenos já não se sentiu
minúsculo diante da gigantesca tarefa de lhes apresentar o Deus Todo-Poderoso? Como
pais é no aconchego do lar e na simplicidade da rotina que o mandato de Deuteronômio
6.4-9 nos alcança: somos chamados a falar do Senhor ao deitar, ao levantar, caminhando
ou estando em casa. Como servos do Senhor, na igreja local, como professores e
pastores, também experimentamos o a alegria de apresentar o evangelho às gerações,
na pregação, nas aulas do departamento infantil, ou mesmo nas conversas
intergeracionais. Desejamos que todos, especialmente as crianças, conheçam e amem a
Jesus!
No entanto, vivemos em um mundo saturado de telas, animações coloridas e estímulos
visuais, e temos sido pressionados a adotar atalhos pedagógicos. Cartazes com rostos de
Jesus, Bíblias infantis repletas de ilustrações divinas e vídeos bíblicos… tudo parece tão
inocente e útil para reter a atenção das crianças. Mas será que ao tentarmos facilitar o
ensino, não estamos violando o próprio padrão que o Senhor estabeleceu?¹
Neste breve texto pretendo compartilhar algumas reflexões que analisam a teologia
bíblica, a tradição reformada, os Padrões de Westminster e o uso de imagens na
instrução de nossas crianças. Convido você a pausar sua rotina por alguns instantes,
pegar uma xícara de café e pensar um pouco sobre a pureza e beleza do ensino da
Palavra de Deus em nossos lares, como o Senhor estabeleceu que deve ser.
- O Deus Invisível e o Zelo da Igreja do Lar e da Igreja Pública
Muitas vezes, pensamos que o Segundo Mandamento (“Não farás para ti imagem de
escultura, nem semelhança alguma…”) é uma regra apenas para a liturgia da igreja aos
domingos. Mas a verdade é que o zelo de Deus pela Sua própria adoração começa no
seio da família do pacto.
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¹ Sem falar, claro, no próprio prejuízo neurológico – na plasticidade cerebral das crianças -, e outros como na capacidade de atenção e a socialização das crianças.
Deus é espírito, infinito, eterno e incompreensível. A Sua essência é invisível aos olhos
mortais. Quando tentamos dar um “rosto” físico a Deus Pai ou representá-Lo como um
ancião de barba branca (uma clara influência da arte renascentista que nada tem de
bíblica), nós rebaixamos a glória divina e domesticamos a Sua santidade.²
O grande reformador João Calvino nos lembrava que a mente humana é uma fábrica
contínua de ídolos.³ A mente infantil não é diferente! Ao ver uma ilustração de Deus, a
criança automaticamente fixa aquela imagem física em sua mente, cometendo o que os
puritanos chamavam de idolatria mental. O que ela passa a adorar e a imaginar em suas
orações não é o Deus infinito revelado nas Escrituras, mas o desenho que ela viu no livro.
- E quanto às imagens de Jesus? O dilema do Deus-Homem
Este é, sem dúvida, o ponto mais sensível nas salas de aula infantis e nos nossos
momentos de culto doméstico. O argumento comum que ouvimos é: “Mas Jesus se encarnou! Ele teve um corpo real e foi visto por homens. Por que não podemos desenhá-lo?”
A teologia bíblica e reformada clássica nos responde com um amor profundo à pessoa de
Cristo. Nosso Salvador é o Deus-Homem, possuindo duas naturezas — divina e humana
— de forma inseparável.
Se o desenho de uma Bíblia infantil retrata apenas a natureza humana de Cristo (um
homem loiro ou de traços europeus de cabelos compridos), ele está operando uma
separação visual onde as duas naturezas são isoladas. Na história da Igreja, separar as
naturezas de Cristo é cair na heresia do Nestorianismo.⁴
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² Quero tomar emprestado o termo que C.S. Lewis utilizou em “O Leão, o Guarda Roupa e a Feiticeira”: — “Ele há de vir e há de ir-se — disse o Sr. Castor. — Num dia vocês o verão, no outro não. Ele não gosta de se sentir preso… e, claro, há outras terras que precisam da atenção dele. Mas não há com que se preocupar: ele aparecerá de repente quando menos esperarmos. O importante é saber que ele não gosta de ser controlado. Ele não é um leão domesticado, vocês sabem”. LEWIS, Clive Staples. O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. cap. 17, p. 198-200. (Série As Crônicas de Nárnia).
³ CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. v. 1, Livro I, Capítulo 11, Seção 8, p. 117-118. Nesse capítulo (intitulado “É ímpio atribuir a Deus uma forma visível, e, de modo geral, decai para a idolatria quem quer que erija para si imagens”), Calvino argumenta que a idolatria não surge primeiramente de fontes externas, mas da própria imaginação humana decaída, que constantemente tenta criar representações tangíveis para controlar ou domesticar a glória do Deus invisível.
⁴ O Nestorianismo, heresia cristológica atribuída a Nestório (c. 386–450 d.C.), Patriarca de Constantinopla, foi formalmente condenado no Concílio de Éfeso (431 d.C.). Esta doutrina sustentava que em Jesus Cristo não havia apenas duas naturezas, mas duas pessoas distintas: uma pessoa humana (o homem Jesus) e uma pessoa divina (o Logos), unidas de forma puramente moral ou acidental. No contexto do aniconismo reformado, a tentativa de retratar visualmente apenas a fisionomia humana de Jesus é considerada uma forma prática de nestorianismo, pois divide a pessoa indivisível do Mediador, apresentando a Sua humanidade como se ela existisse ou pudesse ser contemplada de forma autônoma e separada de Sua divindade. Para uma análise exegética da relação entre a união hipostática e a proibição das imagens de Cristo, cf. VANDRUNEN, David. Pictures of Jesus and the Sovereignty of Divine Revelation. The Confessional Presbyterian, v. 5, p. 214–227, 2009. Vid. também HYDE, Daniel R. In Living Color: Images of Christ and the Means of Grace. Grandville, MI: Reformed Fellowship, 2009, cap. 3, p. 45–58.
Se tentamos dizer que aquela imagem representa o Cristo completo, estamos tentando
circunscrever e limitar a divindade invisível do Filho a um punhado de traços humanos e
finitos de tinta — o que desonra a Sua glória e descamba para o Monofisismo.⁵
Como bem asseverou o teólogo John Murray, uma imagem de Jesus é necessariamente
apenas a imagem de um homem comum, e não do Cristo Deus-homem em Sua pessoa
indivisível. Por essa razão, os teólogos de Westminster foram explícitos ao elaborar as
nossas confissões, rejeitando toda e qualquer tentativa de representar a Divindade em
qualquer das suas Pessoas, conforme veremos nos recursos teológicos que guiam nossa
fé.
- O Culto e a Maternidade na Aliança: Como Ensinar sem Imagens?
O fato de não utilizarmos imagens de Deus ou de Jesus não empobrece o nosso ensino.
Ao contrário, ele o liberta para depender exclusivamente dos meios que o próprio Senhor
designou e abençoou! Nossos filhos não precisam de “muletas visuais” para crer. A fé vem
pelo ouvir da Palavra de Cristo (Romanos 10.17).
Aqui estão caminhos bíblicos e profundamente reformados para instruirmos os pequenos
na pureza da aliança:
- Leitura Viva e Narração Bíblica
A Palavra de Deus é rica em imagens literárias e dramaticidade. Leia a Bíblia diretamente
para os pequenos. Use sua voz, mude a entonação e faça perguntas. Permita que o Espírito Santo, por meio do texto lido, guie a imaginação natural e saudável da criança,
em vez de impor a ela a interpretação fabricada por um artista.
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⁵ O Monofisismo, heresia cristológica formulada principalmente por Êutiques (c. 378–454 d.C.) e condenada pelo Concílio de Calcedônia (451 d.C.), defendia que em Jesus Cristo havia apenas uma única natureza (a divina, que teria absorvido a humana após a Encarnação), negando a coexistência de Suas duas naturezas distintas. No âmbito da teologia reformada confessional e da aplicação do Segundo Mandamento, a tentativa de capturar ou representar o “Cristo completo” (Sua pessoa divina e humana unidas) em uma imagem material é apontada como um monofisismo prático. Isso ocorre porque o ato de delimitar a divindade infinita e invisível do Filho a traços geométricos e pigmentos de tinta confunde o divino com o humano, reduzindo e deificando a forma criada em detrimento da transcendência espiritual e inconfundível do Mediador. Cf. CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. v. 1, Livro I, Capítulo 11, Seção 12, p. 122–123. Vid. também SPROUL, R. C. Somos Todos Teólogos: Uma Introdução à Teologia Sistemática. São Paulo: Fiel, 2017, p. 112–115.
- A Beleza dos Catecismos
Os puritanos nos deixaram um legado educacional maravilhoso: os catecismos! O uso do
Breve Catecismo ou do Catecismo Infantil Puritano de 127 Perguntas (com perguntas e
respostas simples como “Quem fez você?” “Deus!”) treina a mente da criança com
conceitos teológicos sólidos e palavras bíblicas, sem a necessidade de imagens.
- A Memorização das Escrituras
Peça ao Senhor para que Ele lhe dê a graça de ser um instrumento para gravar a Palavra
no coração deles. Crianças pequenas têm uma capacidade incrível de memorização.
Versículos curtos sobre os atributos de Deus formam um alicerce que as protegerá das
mentiras do mundo.
- Artes e Auxílios Permitidos
Nós podemos e devemos usar recursos visuais que não representem a divindade! Mapas
das viagens do apóstolo Paulo, maquetes do Tabernáculo, ilustrações de barcos, animais,
plantas, e até desenhos de personagens puramente humanos (como Moisés no deserto,
Davi com a funda, ou Noé na arca, sem desenhar a imagem de Deus) são excelentes
ferramentas históricas e geográficas que não violam o mandamento.
- Aprofundando as Nossas Raízes
Para nós o estudo sério da teologia não é um dever meramente acadêmico, mas um
exercício de piedade prática e amor ao Senhor. Se você deseja aprofundar suas raízes e
compreender o porquê de guardarmos zelosamente os nossos lares e classes infantis de
tais representações, encorajamos calorosamente a leitura e o estudo dos seguintes
recursos de nossa herança confessional:
- Os Padrões de Westminster (Disponíveis no site oficial da IPB)
A nossa herança doutrinária nos fornece uma bíblica e consequentemente maravilhosa e
segura trilha para caminharmos na educação pactual dos pequenos. Ao consultarmos a
Confissão de Fé de Westminster (CFW) e os seus catecismos encontramos os limites de
nossa adoração e ensino:
O capítulo 21 da Confissão de Fé de Westminster – CFW (Do Culto Religioso e do
Domingo) é a sedes doctrinae do Princípio Regulador do Culto. Ele nos ensina que o
modo aceitável de adorar ao verdadeiro Deus é instituído por Ele mesmo e limitado por
Sua vontade revelada. O texto declara solenemente que o Senhor não pode ser adorado
segundo as imaginações e invenções humanas, “ou debaixo de qualquer representação
visível”. Quando ensinamos nossas crianças por meio de figuras divinas, estamos
ensinando-os a associar Deus a algo material, ferindo a raiz do culto espiritual.
O Breve Catecismo (BC), feito para o ensino de crianças, nos lembra que o Segundo
Mandamento exige receber e conservar puros todos os cultos e ordenanças que Deus
estabeleceu (BC P.50), proibindo “adorar a Deus por imagens” ou por qualquer outro
modo não instituído na Bíblia (BC P.51). Por sua vez, o Catecismo Maior de Westminster
(CMW) aborda com profundidade os pecados proibidos pelo Segundo Mandamento. Ele
condena de forma explícita: “toda adoração de Deus por meio de imagens, em si
mesmas, ou nelas, ou por meio delas; a fabricação de qualquer representação de Deus,
de todas ou de qualquer das três pessoas, quer interiormente em nossa mente, quer
exteriormente em qualquer espécie de figura ou semelhança de qualquer criatura
visível…”
Note a precisão dos que elaboraram os padrões de Westminster: eles vetaram a
representação de qualquer uma das três Pessoas (o que inclui Jesus Cristo) e barraram
tanto a imagem esculpida na parede quanto a imagem criada “interiormente em nossa
mente”. Trata-se de uma blindagem espiritual para a imaginação infantil.
Em seu artigo “Pictures of Jesus and the Sovereignty of Divine Revelation”, publicado em
periódicos teológicos reformados, o teólogo David VanDrunen oferece uma excelente
defesa do aniconismo confessional à luz da pessoa de Cristo. Ele fundamenta sua crítica
com base na união hipostática⁶ (CFW 8.2), lembrando que as duas naturezas de Cristo — a divina e a humana — são “inseparáveis”. Por conseguinte, quando um artista desenha
Jesus, ele está inevitavelmente retratando apenas a Sua humanidade. Isolar a
humanidade de Cristo em um desenho, separando-a de Sua divindade espiritual invisível,
constitui uma negação prática da união hipostática (como já vimos, um erro cristológico
conhecido como nestorianismo). Em seu texto VanDrunen nos desafia a confiar na
soberania da revelação divina, que escolheu se revelar a nós e aos nossos filhos pela
Palavra lida, falada e ouvida, que é objetiva e não por retratos especulativos.
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⁶ Em termos simples, a união hipostática é a doutrina bíblica que afirma que, na encarnação, as duas naturezas de
Jesus Cristo — a divina e a humana — uniram-se de forma perfeita e indissolúvel em uma única pessoa (ou hipóstase), que é a pessoa divina do Filho de Deus (o Logos).
- Materiais de Ensino e Discipulado Infantil
Para enriquecer a aplicação desse princípio no dia a dia, podemos beber da fonte que é a
Bíblia, a Palavra de Deus. A igreja bíblica e, por conseguinte os reformados, defendem a
suficiência das Escrituras para o discipulado.
As famílias e igrejas cristãs reformadas do passado criavam e ensinavam as crianças sem
imagens. Utilizavam-se dos catecismos como Breve Catecismo de Westminster e o
Catecismo Infantil Puritano de 127 Perguntas. Dessa maneira eles procuravam conduzir
as mentes infantis à adoração de um Deus invisível por meio da memorização verbal rica
e constante. Esses catecismos remetem a textos bíblicos que eram e devem continuar
sendo estudados e memorizados pelos pequenos.
Precisamos resgatar o valor da Palavra de Deus em uma cultura que idolatra o visual,
guiando as famílias a enxergarem a beleza de um lar e uma igreja guiada pela fé que não
depende de telas ou gravuras de Jesus. Os recursos didáticos mais eficazes na infância
são o relacionamento pessoal e a encarnação prática da Palavra de Deus na vida dos
pais e dos irmãos na fé. O discipulado infantil fiel não se faz atraindo os olhos físicos das
crianças com ilustrações caricatas de Deus, mas moldando seus corações por meio de
uma vida de oração, escuta bíblica e consolo espiritual real.
O culto doméstico deve ser urgentemente resgatados como ambiente de adoração,
ensino e comunhão. O uso da Palavra e de hinos cantados é suficiente para gerar temor,
reverência e alegria nas crianças da aliança.
- Andando por Fé, Não por Vista
No final de nossas vidas, o que mais desejamos para os nossos filhos é que eles tenham
uma fé genuína, aquela que é “a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos
que se não veem” (Hebreus 11.1). Quando acostumamos nossos pequenos a precisarem
“ver” para aprender sobre Deus, estamos enfraquecendo os músculos espirituais de sua
fé.
Precisamos limpar nossos lares e igrejas de “monumentos de adoração visual” e cultivar o
doce som da pregação, da leitura bíblica familiar e pública, das orações sinceras e dos
hinos cantados. Oro para que os nossos filhos conheçam a Cristo não pelas cores
artificiais de um papel impresso, mas pela iluminação do Espírito em seus corações,
contemplando pela fé Aquele que é invisível.
Bibliografia:
Victor Ximenes é casado com Paula Ximenes, com quem tem cinco filhos. Ele é pastor presbiteriano, conselheiro bíblico e professor do Seminário Presbiteriano do Norte (SPN), dentre outros seminários teológicos.
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