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“Enrolando Nossos Filhos”. Uma análise do filme “Enrolados” por Simone Quaresma

Da mesma forma que fizemos na resenha de Frozen, desejamos apontar alguns aspectos de Enrolados que devem ser considerados.

Enrolados é um desenho que, em princípio, trata da libertação de uma princesa e de uma história de amor, cheio de momentos emocionantes que mascaram ensinamentos perniciosos! Gostaria de traçar um pequeno e despretensioso perfil dos personagens, para que você analise comigo:

O “príncipe encantado” da história

Um cara descolado, engraçado e bonitão. Ao mesmo tempo, um mulherengo que faz várias menções durante o desenho de que é um conquistador. Ele é um espertalhão “ladrão que rouba ladrão”, que está sendo procurado pela guarda real por ter roubado a coroa da princesa desaparecida. Logo depois da cena do roubo, ele segue feliz, alardeando que “hoje o dia será ótimo!”. Seu perfil engraçado e bonitão faz os pequenos expectadores gostarem e torcerem por ele de cara, ignorando seu caráter duvidoso e sua vida de crimes. O ensino por trás é claro: as coisas não são preto no branco, não há certo e errado. Tudo depende do quão engraçado e descolado você seja! Na cena em que ele vê o cartaz com sua cara de procurado, oferecendo recompensa por sua captura, ele leva um susto ao ver o cartaz: “eles nunca acertam o meu nariz”! Um narcisista ladrão que está acostumado a aparecer com o rosto estampado em cartazes de PROCURA-SE é o herói do filme! Na parte onde cada um conta quais são os seus sonhos, José, o ladrão boa praça e conquistador, descreve o seu: “morenão, solteirão, com uma pilha de dinheiro” e o mesmo herói declara que “uma reputação falsa é tudo na vida”. Duvido que este seja o perfil de homem que você deseja encontrar para se casar com sua filha um dia. Duvido que este seja o tipo de homem que você deseja que seu filho se torne!

A falsa mãe e sua relação com a filha

Um recurso sempre muito usado em filmes e novelas é o de levar as relações a extremos horrorosos, para justificar as atitudes libertárias dos oprimidos. Numa novela, por exemplo, aquela doce jovem é casada com um péssimo marido, que é grosseiro e não a trata com carinho. A relação é posta numa perspectiva tal, que quando você menos percebe, está torcendo para que a paixão platônica que ela tem por seu vizinho gentil se concretize e ela largue aquele “traste” de marido.

Neste desenho acontece algo parecido. Sim, eu sei que aquela não é a mãe verdadeira da mocinha, embora a tenha criado e seja, de fato, a única mãe que conheceu. Não ignoro o contexto do sequestro, não quero minimizar o que ela fez. O que quero frisar é que, na cabeça da criança pequena, estes detalhes não são tão relevantes quanto a mensagem da relação das duas.

O que ficará na memória da criança, são as palavras da música cantada no começo, misturadas à sensação ruim de ver estas palavras saindo da boca de alguém em quem não se pode confiar: “Sua mãe sabe mais, você não vai saber se virar por conta própria, eu só digo porque te amo, não se esqueça e obedeça, sua mãe sabe mais.” Todas estas frases poderiam estar nos lábios de uma amorosa e preocupada mãe. Mas ao serem ditas pela vilã do desenho passam um misto de sentimentos para a criança que ela não sabe distinguir. A figura materna é associada a uma mulher má, falsa e que manipula o amor e a confiança da filha. Elas cultivam um relacionamento pautado no interesse pessoal. Que prejuízo para o relacionamento mãe e filha… que prejuízo ficar ouvindo aquela bruxa dizer: “minha menina preciosa”, lançando dúvidas e medos no coração de nossas crianças quanto ao real interesse de suas mães por seu bem estar!

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A doce Rapunzel

Rapunzel demonstra que aprendeu com a mãe a disfarçar o que realmente pensa para conseguir o que deseja. Na frente da mãe, ela finge aceitar sua ordem malvada de não sair da torre. Por trás, faz o contrário. Ela começa a agir com a mesma desfaçatez que aprendeu com a falsa mãe. Na cena em que ela acerta José (o príncipe encantado que usa nome falso!) com uma frigideira, ela dá um sorrisinho de canto de boca e com voz de deboche diz a si mesma: “Eu sou muito frágil para cuidar de mim mesma, né mamãe?”

Após sua fuga, ela se divide entre o sentimento de culpa pela desobediência e a alegria de fazer o que sempre desejou. Não quero e não vou entrar no mérito da questão, se a ordem era plausível ou não. Esse não é o ponto. Minha preocupação é de nossas crianças fazerem uma leitura unilateral desta verdade: “não concordo com o que meus pais estabeleceram como limite para mim (estando certos ou errados) e tenho o direito de agir como eu acho certo”. Sua reação de dúvida quanto ao que deveria sentir, desencadeia uma sucessão de frases desastrosas e permeadas de iniqüidades, que podem ser minimizadas por estarem na boca do par romântico do desenho. Acompanhe comigo: “Mamãe ficaria furiosa, mas o que os olhos não vêm o coração não sente” e aí entra a sessão de “brilhantes” conselhos dados a ela por aquele vil ladrão por quem ela está para se apaixonar: “Crescer tem essa etapa. Um pouco de rebeldia, um pouco de aventura, isso é bom e é até saudável” “Vai magoá-la e arrasar o coração dela? Mas isso você não pode evitar”, “você está pensando demais” e por fim ele debocha do relacionamento mãe e filha baseado em confiança mútua.

Quando o tema vira “seu sonho está acima de tudo”, não é levado em conta o fato de Rapunzel estar usando meios ilícitos, ilegais e imorais para realizá-lo. Note bem, ela passa a defender, a esconder e a fugir com um ladrão procurado por roubo! Lindo, não?!!!! Desde que não seja a minha filha…, você pode estar pensando. A Bíblia dá um nome para isso: chamar o que é mau de bom!

No relacionamento do casal também podemos observar uma série de distorções. Cada um dos dois quer esconder sua história do outro. E quando eles descobrem que se amam, a mágica acontece. O amor muda tudo… transforma aquele patife em um homem de boas intenções (embora ele minta para ela em seguida…). Segundo a sua narrativa, antes de conhecê-la ele vivia a vida em vão, não vendo as coisas como realmente eram. O amor dela o transforma: “tudo é novo, pois agora eu vejo a luz: é você a luz”. Ele não precisa de redenção, não precisa de arrependimento, o amor o salva de quem ele era! “Não minha filha…um canalha por quem você se apaixone não será um canalha a vida toda. Se vocês se amarem de verdade, ele vai mudar por você…” Você se imagina dizendo isso a sua jovem filha, que se encantou por um mau elemento? Claro que não! Mas permite que a mente dela seja inundada por esta mentira deslavada sem se colocar contra?

Será que temos permitido que todo e qualquer conceito tortuoso entre em nossa casa, só por estar travestido de desenho infantil e vindo da boca de lindas princesas? Mães, fiquem atentas! Seus filhos estão em formação, seu caráter está sendo burilado e esculpido dia a dia! E não se engane: não se ensina o certo reforçando o errado! Não se mostra o que não presta para ensinar o que presta. O que não está de acordo com o padrão de Deus eles já nascem sabendo. Nossa luta é justamente para reforçar a lei de Deus e retirar deles as mentiras nas quais eles já nascem acreditando. É nisto que devemos nos empenhar! “O que ouvimos e aprendemos, o que nos contaram nossos pais, não o encobriremos a seus filhos; contaremos à vindoura geração os louvores do SENHOR, e o seu poder, e as maravilhas que fez.” Salmos 78.3 e 4

2015-03-27

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simone* Simone Quaresma é casada há 25 anos com o Rev. Orebe Quaresma, pastor da Igreja Presbiteriana de Ponta da Areia em Niterói, Rio de Janeiro.
Professora de educação infantil, deixou a profissão para ser mãe em tempo integral de 4 preciosidades: Lucas (23 anos), Israel (22 anos), Davi (19 anos) e Júlia (17 anos). Ela trabalha com aconselhamento e estudos bíblicos com as mulheres da Congregação.

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